CAPÍTULO X - “O SUBVERSIVO DE PAULO AFONSO”

[CAPÍTULO X - “O SUBVERSIVO DE PAULO AFONSO”]

“O SUBVERSIVO DE PAULO AFONSO”

“O SUBVERSIVO DE PAULO AFONSO”

CAPÍTULO X

Conforme relatei no final do capítulo anterior, fui preso com a Regina por soldados e um sargento sob o comando de um tenente R2 da PE, (POLÍCIA DO EXÉRCITO), à noite, em uma badalada praia do litoral paulista. Algemados, fomos colocados em “camburões” separados e esta foi a última vez que vi a intrépida companheira. Soube depois no calabouço que a mesma depois de torturada e abusada tinha sumido num “rabo-de-foguete”, lembrando a música “o bêbado e a equilibrista” na voz inimitável da saudosa Elís Regina. Ao ser retirado da viatura passei por um “corredor polonês”, espancado e agredido com uma coronhada no queixo que quebrou meus dentes frontais inferiores, restando apenas, ainda, a cicatriz. Em seguida fui encapuzado e jogado em uma cela solitária e subterrânea onde o odor da maresia mesclava-se com o de urina e fezes, indicando que o mar estava próximo.

A minha agonia e os horrores das torturas física e psicológica estavam apenas começando. Sobre o sádico martírio que sofri durante três anos intermináveis nos porões da ditadura militar, em São Paulo e na Bahia, por “desconfiômetro”, devido à atual conjuntura política/social/sanitária que o país ora atravessa, preferi deixar para narrar no livro com o mesmo título destas narrativas, no momento em procedimento para lançamento em futuro próximo. Todavia, não poderia deixar de reiterar o já publicado em jornais impressos e em revistas e livros da época, fontes fidedignas de crédito, o sadismo empregado pelos opressores que utilizavam instrumentos de tortura desde que o regime militar assumiu o poder. A primeira vítima foi o líder camponês Gregório Bezerra. Amarrado com cordas e arrastado pelas ruas de Recife, levou coronhadas pelo corpo e seus pés foram queimados com soda cáustica. Não foi enforcado como exemplo porque religiosos interviram para impedir o martírio do homem do campo.

“Um mês após o golpe, presos políticos eram conduzidos para o navio Raul Soares, rebocado do Rio de janeiro para o estuário de Santos, litoral paulista. A prisão flutuante era dividida em três calabouços, batizados com nomes de boates famosas da época: EL Maroco, salão metálico, sem ventilação, ao lado da caldeira, ali os prisioneiros eram expostos a uma temperatura que passava dos 50 gruas; Night and day, uma pequena sala onde os presos ficavam com água gelada até os joelhos; Casablanca, onde se despejava as fezes do navio. As três masmorras eram usadas para quebrar a resistência dos insurgentes. Sindicalistas e políticos da baixada santista passaram pela nefasta prisão flutuante que foi desativada em outubro de 1964. Mesmo diante de tantas evidências. O governo militar jamais admitiu que havia tortura no Brasil. O presidente Castelo Branco chegou a negar publicamente a existência de truculência em seu governo.

Mas contrariamente às palavras do presidente, no dia 24 de agosto de 1966, foi encontrado boiando no rio Jacuí, afluente do Guaíba, em Porto Alegre, o corpo do sargento, Manoel Raimundo Soares, em estado de decomposição, com as mãos amarradas para trás. O graduado fazia parte dos militares expurgados do exército por causa do seu envolvimento com a militância política no governo João Goulart. O seu corpo trazia marcas de torturas, causando grande comoção e revolta na população da época. Fazia parte dos “melancias”, verdes-oliva por fora e vermelhos por dentro. O episódio ficou conhecido como “o caso das mãos atadas”. Os militares prometeram investigar às circunstâncias da morte do sargento e punir culpados, mas arquivaram o caso e jamais tiveram o trabalho de investigá-lo”.

Nesta perspectiva angustiante para àqueles que apregoavam e lutavam para a volta do sistema democrático ao país, o medo era aterrorizante e constante nos prisioneiros e nos que militavam em liberdade na clandestinidade. Só em pensar nos métodos de torturas engendrados pela maldade humana e praticados pelos agentes do estado de exceção então vigente, levaram ao suicídio, induzidos ou não, vários companheiros das várias organizações de combate à repressão.

Sobre estes métodos de tortura dos quais fui vítima de grande parte dissertarei no capítulo seguinte...